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terça-feira, 24 de maio de 2011

Apenas para refletir



Dois Sapos


Vivia um sapo – no fundo dum poço.
Lá nascera, lá vivera, de lá nunca saíra – e lá esperava morrer.
0 seu horizonte era de um metro e meio de largura – o diâmetro do poço.
A profundidade de sua vida era de três palmos – como as águas do poço.
Para além da borda do poço – nada mais existia para ele...
Certo dia, tombou no fundo do poço – um sapo de outras regiões...
Vinha de longe, de muito longe – das praias do mar...
Com secreto rancor, viu o primeiro invadido pelo segundo o seu espaço vital.
Mas, como o segundo era mais forte, resolveu o primeiro não  guerrear – e limitar-se a defesa passiva...
Depois de três dias de silêncio recíproco, travou-se entre os dois batráquios o diálogo seguinte:
– Donde vens tu, estranho invasor?
– Das praias do mar, ignoto ermitão.
– Que coisa é o mar?
– 0 mar?... o mar é uma grande planície d'água.
– Tão grande como esta pedra em que pousam minhas pernas gentis?
– Muito maior.
– Tão grande como esta água que reflete o meu corpo esbelto?
– Maior, muitíssimo maior.
– Tão grande como este poço, minha casa.
– Mil vezes maior. Milhares de poços destes caberiam no mar que eu vi. 0 mar é tão grande que sempre começa lá onde acaba. É tão grande que todo o céu cabe nele, e ainda sobra mar. Todos os sapos do mundo, pulando a vida inteira, não chegariam ao outro lado tão grande é o mar a cuja margem nasci e vivi.
– Safa-te daqui, mentiroso! – exclamou o batráquio do poço. – Coisa maior que este poço não pode haver! mais água que esta água, é mentira!...
Desde então viviam os dois em pé de guerra, no fundo do poço.
Não diz a história se algum deles, super-sapo, venceu nessa luta feroz...
Nem diz se um deles, batráquio genial, convenceu o outro da verdade das suas idéias...
Consta apenas que, desde esse tempo, vivem no mundo seres que só crêem em si mesmos...
Seres que sabem tudo o que os outros ignoram...
Seres que tacham de loucos aos que afirmam o que eles não compreendem...
Seres de tão vasto saber que consideram desdouro aprender...
Não fales, meu amigo, em mares – a quem mares não viu!
Deixa viver no poço – quem no poço nasceu!
Horizonte de metro e meio, água de três palmos de fundo, pedra de meio palmo – que mais quer o batráquio dum poço?
Deixa ao ignorante a sua feliz ignorância!
Não fales em mares a quem para um poço nasceu!
Cada qual com seu igual...

                                         HUBERTO ROHDEN
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